Análise

Das cirurgias que não aconteceram no mês passado, quantas voltaram para a agenda?

A maioria dos hospitais não sabe responder. O indicador cirúrgico soma dois eventos com custos incomparáveis: a cirurgia que volta e a que não volta. Uma consome o tempo de sala que ficou reservado e adia a receita. A outra extingue a receita da conta inteira. Quando o número não separa as duas, ele informa que existe um problema e esconde qual.

Terminologia

Quatro eventos que não são sinônimos.

A distinção não é preciosismo. Cada evento consome um recurso diferente, tem um custo diferente por ocorrência e exige uma intervenção diferente. Tratá-los como um bloco inviabiliza qualquer leitura financeira.

Suspensão

A cirurgia não acontece na data prevista, mas o aviso cirúrgico permanece. O procedimento continua indicado e será remarcado. O hospital perde a ocupação daquela sala, não perde o procedimento. A receita é adiada, não extinta.

Cancelamento

O aviso cirúrgico é encerrado. A cirurgia não será realizada naquele hospital, por desistência do paciente, mudança de conduta, migração para outro prestador ou perda de elegibilidade. Aqui a receita não é adiada. Ela é perdida.

Atraso

A cirurgia acontece, fora do horário programado. Não entra na taxa de suspensão, mas consome capacidade e produz efeito cascata sobre os procedimentos seguintes do mesmo dia, sendo uma das causas de suspensão das últimas cirurgias da agenda.

Prolongação

A cirurgia acontece e ocupa mais tempo de sala do que o previsto. Também não aparece na taxa de suspensão. Compromete a agenda subsequente e distorce o dimensionamento do mapa cirúrgico, porque o tempo estimado deixa de corresponder ao tempo real.

O que os números realmente dizem

Os estudos brasileiros usam suspensão e cancelamento como sinônimos. A definição técnica adotada pelos manuais de indicadores conta toda cirurgia agendada que não foi realizada, sem verificar se o aviso permaneceu aberto. Todas as taxas publicadas abaixo são taxas de suspensão no sentido amplo. Nenhuma delas isola o cancelamento de fato.

O que os estudos mostram

Uma dispersão que não se explica pela complexidade.

Hospitais brasileiros de porte semelhante registram taxas muito diferentes entre si. Quando a variação é dessa ordem, a explicação raramente está no perfil dos pacientes. Está em como a instituição conduz o intervalo entre o aviso cirúrgico e a entrada em sala, e em como ela registra o que aconteceu nesse intervalo.

Taxas de suspensão registradas em estudos brasileiros
6,8%

Hospital público, São Paulo

De 8.443 cirurgias eletivas agendadas, 573 não foram realizadas. Cerca de metade por razões clínicas e metade por razões não clínicas.

16,8% a 20,5%

Hospital público, Rio de Janeiro

Três anos consecutivos, 7.903 formulários analisados: 18,5% em 2015, 20,5% em 2016 e 16,8% em 2017. Condição clínica desfavorável predominou em cirurgia geral, urologia e ginecologia.

8,3%

Hospital geral, Minas Gerais

97 ocorrências em 1.163 cirurgias programadas ao longo de cinco meses, com absenteísmo do paciente como principal causa isolada.

23,3% e 42,7%

Dois hospitais, Nordeste

No mesmo estudo e no mesmo período, um hospital privado-público registrou 23,3% e um hospital público, 42,7%. As causas concentraram-se no paciente e em aspectos administrativos.

Fontes: Santos e Bocchi, Revista Brasileira de Enfermagem, 2017 (São Paulo); Gonçalves e colaboradores, Revista SOBECC, 2020 (Rio de Janeiro); Silva e colaboradores, Brazilian Journal of Development, 2021 (Minas Gerais); Araújo e colaboradores, Revista SOBECC, 2019 (Nordeste). Revisões de literatura registram ocorrências entre 4,4% e 31,6% em hospitais brasileiros. Nenhum dos estudos consultados distingue suspensão com remarcação de cancelamento definitivo do aviso.

O problema do numerador

O que está sendo somado dentro de um único percentual.

O manual de indicadores assistenciais da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro define a taxa como as cirurgias agendadas no mapa operatório que não foram realizadas, determinando que se incluam todas as causas determinantes. O numerador soma eventos de natureza econômica oposta.

Perda de capacidade

Sala montada, equipe escalada, material separado, e o procedimento não acontece. Custo incorrido, receita não realizada. É o caso do paciente que não comparece, da condição clínica detectada no dia e da OPME que não chegou. O aviso permanece, e a cirurgia retorna à agenda.

Perda de receita

O aviso é encerrado e o procedimento não retorna. Volume menor, custo por evento muito maior, porque o hospital perde a conta inteira e não apenas a ocupação de uma sala. É o evento que menos aparece nos registros e o que mais pesa no resultado.

Ruído de registro

Aviso lançado em duplicidade e depois encerrado. Remarcação feita com antecedência suficiente para a sala ser reocupada. Troca de sala, ajuste de horário, correção de agenda. Entram na taxa e não custaram capacidade nem receita.

O efeito prático

Uma taxa de 18% pode conter proporções muito distintas desses três componentes, e cada composição exige uma decisão gerencial diferente. Sem a separação, o indicador informa que existe um problema sem indicar qual, e por isso permanece restrito ao relatório do centro cirúrgico.

O dado que muda a conversa

Em um hospital público paulista, 80% dos motivos registrados eram evitáveis. A taxa poderia cair de 6,79% para 1,36% sem nenhuma mudança clínica, apenas com correção de processo.

O número interessa menos pela magnitude do que pelo que ele revela sobre a natureza do problema. A maior parte do que se registra como suspensão não decorre da complexidade do caso nem da imprevisibilidade clínica. Decorre de informação que chegou tarde, de pré-requisito não verificado e de comunicação que não fechou o ciclo. São falhas de processo, e falhas de processo são corrigíveis com governança.

Onde a cirurgia se perde

As causas mais frequentes, e onde cada uma nasce.

Quase todas antecedem o dia da cirurgia. O centro cirúrgico é o lugar onde o problema aparece, não onde ele se origina.

Absenteísmo do paciente

Causa isolada mais frequente no estudo mineiro, com 27,8%. Não nasce no centro cirúrgico. Nasce na forma como a instituição se comunica com o paciente entre a indicação e a data, e no intervalo que ela escolhe manter entre as duas.

Recursos materiais

Segunda causa no mesmo estudo, com 16,5%. OPME não liberada, material não esterilizado a tempo, equipamento em uso em outra sala. É sintoma de três áreas que decidem sobre o mesmo recurso sem compartilhar a mesma informação.

Erro de agendamento

13,4% dos casos. Sobreposição de sala, tempo cirúrgico subdimensionado, procedimento marcado sem checagem de pré-requisito. É a causa mais puramente administrativa, e parte dela sequer representa perda: é ruído de registro contado como se fosse.

Decisão médica e mudança de conduta

No estudo paulista, pedido do cirurgião ou mudança de conduta respondeu por 17,9%. Parte é clinicamente legítima. Parte reflete indicação feita sem avaliação pré-anestésica concluída. É também a causa que mais frequentemente termina em cancelamento do aviso, e não em remarcação.

Condição clínica no dia

Cerca de metade das ocorrências no estudo paulista teve razão clínica. Uma parcela é genuinamente inevitável. A outra é falha de processo vestida de intercorrência, e separar as duas exige auditoria, não confiança no motivo declarado.

Leito e fluxo interno

UTI indisponível, leito de retaguarda ocupado, alta não processada. A demanda represada do centro cirúrgico raramente nasce no centro cirúrgico. Ela nasce na gestão de leitos e no fluxo de saída do paciente.

O que custa

Uma sala vazia custa quase o mesmo que uma sala em uso. Equipe escalada, estrutura aberta, material já separado. O que desaparece é a receita.

Um levantamento da Planisa com 112 hospitais públicos e privados apontou custo médio de R$ 783 por hora de centro cirúrgico. Esse é o valor de referência para a suspensão, que consome horas de sala. O cancelamento exige outra conta: o que se perde não é a hora, é a conta inteira do procedimento, com diária, material, honorários e taxas. Estimativas internacionais apontam cerca de dois mil dólares por hora de sala ociosa, e um hospital gaúcho registrou em estudo publicado gasto anual de aproximadamente R$ 369 mil relacionado a cancelamentos. Nenhum desses números descreve o seu hospital. O que eles estabelecem é que existem duas réguas distintas, e que aplicar a régua da hora ociosa a um cancelamento subestima a perda de forma grosseira.

Uma ausência que diz muito

O indicador que o setor não acompanha.

O Sistema de Indicadores Hospitalares da Anahp, o SINHA, criado em 2003, é a principal referência de benchmarking do setor privado brasileiro. Reúne 273 indicadores a partir de 348 variáveis coletadas junto aos hospitais participantes.

O que o setor mede

Entre os indicadores de divulgação pública estão índice de glosas, prazo médio de recebimento, margem EBITDA, taxa de ocupação, média de permanência, mortalidade operatória e infecção de sítio cirúrgico. São métricas maduras, comparáveis e acompanhadas há anos.

O que não aparece

Nem suspensão nem cancelamento cirúrgico constam entre os indicadores publicados. Um hospital consegue comparar sua margem, seu prazo de recebimento e sua taxa de infecção com o setor. Não consegue comparar quantas cirurgias deixou de realizar.

Por que isso importa

Sem referência externa, cada instituição avalia a própria taxa contra a percepção interna do que seria aceitável. É assim que um número de dois dígitos se normaliza: não porque alguém decidiu que está bom, mas porque não há com o que compará-lo.

O que fazer enquanto isso

Na ausência de benchmark setorial, a referência precisa ser interna e histórica: a própria série do hospital, estratificada por natureza do evento, por especialidade, por causa e por antecedência. É menos confortável que um número de mercado, e consideravelmente mais acionável.

O que verificar

Seis perguntas que o seu indicador deveria responder.

Não são perguntas sobre literatura. São perguntas sobre a base de dados do seu centro cirúrgico. Se alguma delas não tiver resposta hoje, o número que chega à diretoria está incompleto.

Quantas voltaram para a agenda?

Do total de cirurgias não realizadas no último trimestre, quantas foram efetivamente remarcadas e realizadas, e quantas nunca retornaram.

Quanto da base é ruído?

Que percentual dos registros corresponde a duplicidade, correção de agenda ou remarcação com sala reocupada, e portanto não deveria compor a taxa.

Quantas horas de sala se perderam?

Não quantas ocorrências houve, mas quanto tempo cirúrgico foi reservado, não utilizado e não reocupado por outro procedimento.

Quanto disso é evitável?

Que proporção das ocorrências tinha ponto de controle possível antes da data, e qual cifra corresponde a essa proporção.

Onde a perda se concentra?

Qual especialidade, qual convênio e qual turno respondem pela maior parte do prejuízo. A média institucional esconde concentrações.

Quanto isso vale em reais?

Duas cifras separadas, uma para capacidade e outra para receita, com memória de cálculo que resista a questionamento do financeiro.

Como você calcula o seu indicador?

Ele separa perda de capacidade de perda de receita? Os números representam o processo ou apenas o registro? Uma taxa que soma suspensão e cancelamento, sobre uma base não saneada, aponta que existe um problema sem indicar qual. Decisão assertiva exige dado confiável.

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